A vida dos catraieiros e o patrimônio: uma discussão de hegemonia

O patrimônio histórico é, na maior parte das vezes, uma construção hegemônica; ou seja, feita em prol de interesses de uma maioria. Afirmo isso pois, a não ser que as vontades turísticas e comerciais definam aquilo que se entende por “patrimônio”, dificilmente, ele acontecerá como tal. Raros são os casos em que se vê uma minoria contemplada, seja por meio de tombamentos ou salva-guardas. É  como se essa voz ainda não tivesse força.

Passei hoje pela Avenida Beira-Mar, que circunda parte da baía de Vitória, e me deparei com aquilo que temíamos há tempos – e isso me deixa profundissimamente triste: a força com a que Codesa (Companhia Docas do ES) vem desestruturando os catraieiros – indivíduos que guiam barcos a remo, as catraias, há séculos. Digo isso porque há alguns anos eles vem brigando, ferozmente e sem qualquer apoio do Estado, contra essa dura realidade: a ampliação do Porto de Vitória, acarretando no desvio das rotas dos catraieiros (fazendo o percurso Vitória/Vila Velha dobrar o tempo de deslocamento); e, forçando sua expulsão.

E a situação se agrava e, muito possivelmente, não terão mais forças para continuar a briga. Eu que geralmente sou otimista, desacredito, pois poucos são aqueles que topam se juntar a essa causa. São as vozes mudas, aquelas que você passa de carro ou ônibus e se esquece que eles existem.

A metáfora da imagem abaixo é a seguinte: o Porto invade e destroi a vida dos catraieiros. Até quando as minorias serão desconsideradas? Até quando o que é considerado patrimônio vai passar longe dos discursos de quem de fato existe em prol da cidade, como estes cidadãos, que são prestadores de serviço? A quem interessa o espaço da baía? Somente ao comércio e ao turismo?

Originalmente publicado em: 13/o3/13


O movimento dos movimentos

Um dia desses eu li num artigo a seguinte frase: “a grande-mídia é a nova direita”, fazendo alusão à imensa força que a mesma tem, capaz de derrubar Estados. Fique

Ontem estive na reunião – que a priori foi organizada pelo coletivo-espontâneo-sem-nome, formado por artistas, produtores culturais e ativistas, juntos pelas causas urbanas, do qual faço parte – com grafiteiros, membros da Prefeitura de Vitória e sociedade civil. Naturalmente, os artistas se encontravam bastante descontentes com a atitude da Prefeitura em retirar o trabalho “Pontos de Arte”, vinculados ao Programa Rede Cultura Jovem (realizado pela Secult-ES e Instituto Sincades), tratando como vandalismo, já que o mesmo continha indicativos de pixação/graffiti. Oi com a pulga atrás da orelha. Parece que vivemos um momento dicotômico: ao passo que a mídia de massa domina e ganha força, mascarando interesses por meio de outros canais fechados, é também desacreditada; uma dualidade que tira e dá poder o tempo todo.

 trabalho, por sua vez, era caracterizado como “arte urbana”, diferentemente da manifestação graffiti*.

Mais uma vez, como em todos os 60 dias da nova administração da PMV, viu-se uma atitude apática, pautada em agir antes de dialogar e mais: pautada pela mídia. Uma administração ousada é aquela que, ao passo que interage e conversa com a população, pauta a grande-mídia e não o contrário. E fica pare

cendo que a PMV age da seguinte maneira: a mídia de massa pauta; de maneira sectária, a Prefeitura responde proibindo ou criando mecanismos de proibições; depois do rebuliço: volta atrás e pede desculpas.

Ao meu ver, lidar com administração pública é, de fato, um grande problema e um grande jogo de experimentar, errar e acertar. O problema é quando a experimentação não dialoga com a sociedade. Não se espera o acerto, mas o diálogo.

A Prefeitura se desculpou pela limpeza do projeto “Pontos de Arte”e, em ato-nobre, convidou os artistas a refazerem os projetos. E mais do que isso, afirmou: “todos os pontos de ônibus de Vitória terão arte para embelezar a cidade”. Beleza é um constante substantivo que aparece atrelado à arte; como se ela tivesse q

ue, necessariamente ser bela ou contribuir para a beleza de uma cidade. Pelo contrário: a intervenção urbana tem o propósito de fazer pensar; discutir. Trata-se sim de um ato estético, mas, fundamentalmente político. Agir na cidade é agir politicamente; porque é o espaço de contato das pessoas; é o choque de diferenças que nos faz pensar.

Coloco aqui um exemplo de movimento interessante que tem acontecido em Belo Horizonte, como um manifesto-artístico-político, que vai muito além de uma resposta à Prefeitura: é muito maior; transcende a partidos, mas transborda em engajamento político. Este é o Movimento Fora Lacerda (MFL). Mais do que um “Fora Prefeito” ou um “Basta!”, trata-se de uma nova visão sobre os espaços da cidade.

Para conhecer o MFL: http://fora_wp.falasocial.com/O movimento dos movimentos, já que a transformação tão cedo acontecerá por intermédio dos engravatados-políticos (contudo, é importante que se brigue nas duas instâncias; o voto-nulo, ao meu ver, esvazia um dos lados) é o que se espera da atual condição sociopolítica do Brasil.

*graffiti, tecnicamente, é o termo usado para qualquer tipo de manifestação sem autorização, com tinta na cidade, seja ela em letras (o que comumente é atrelado ao nome de “pixação/pichação” ou mesmo “poemas urbanos”)

 

Originalmente publicado em: 01/03/13


Casa para morar

Fizeram uma casa: bonita. Com telhado de duas águas, ela quase beirava à rua. Sentavam-se na calçada dela várias senhoras. Umas faziam rolos para cachearem o cabelo; outras cortavam unhas; outras só fofocavam. A conversa que rolava era sobre tudo e todos. Elas ficavam do lado de fora da casa; do lado de fora, mas com seus corpos, vozes, gritos, risadas, expandiam-na para toda a rua. Não se podia mais distinguir onde começava ou terminava a casa.

Passou um tempinho, coisa de cinco anos. As senhoras se mudaram para outro lugar. A casa continuava lá: bonita. Com o tempo, a parede branca que tecia o muro, foi ficando um bocado suja; talvez até demais. A casa estava à venda, mas quem queria ir morar naquele bairro. Antes era um bairro-vanguarda, mas agora, só crime. Não sei, é o que dizem os jornais, então deve ser verdade: é só crime.

Não compraram a casa. Ela ficou lá. Até um bocado de tempo. Mais de anos, anos, décadas. Era tão bonita. Símbolo do bairro. Os poucos moradores que ”tinham memória”, resolveram salvar essa memória. Afinal, o que seriam de seus netos? Sem memória? Então era preservar a casa a meta. A casa foi tombada. Desde então, ninguém nunca mais mora na casa tombada. Ela tem graffitis, frases escritas. Mas ninguém mora lá. Podia ter gente morando lá.

Originalmente publicado em: 26/02/13